Setor de reforma de pneus ganha peso estratégico diante da concorrência chinesa
Setor de R$ 2,9 bilhões aposta em tecnologia, qualidade e economia circular para enfrentar o avanço dos importados
O setor de reforma de pneus no Brasil movimentou R$ 2,9 bilhões em valor de produção em 2025, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Artefatos de Borracha (Abiarb) e da Associação das Empresas Reformadoras de Pneus do Estado de São Paulo (Aresp). O resultado representa estabilidade em relação ao ano anterior e um crescimento acumulado de 36,8% na última década.
A atividade emprega cerca de 17,9 mil trabalhadores no país e está diretamente ligada ao desempenho da logística nacional, já que aproximadamente 58% das cargas no Brasil são transportadas por rodovias e cerca de 80% do transporte público depende de pneus para operar.
“Estima-se que aproximadamente 65% dos pneus em circulação no país passem por algum processo de reforma ao longo de sua vida útil”, afirma Reynaldo Lopes Megna, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Artefatos de Borracha (Abiarb) e do Sindicato das Indústrias de Artefatos de Borracha e da Reforma de Pneus no Estado de São Paulo (Sindibor), além de diretor executivo da Associação das Empresas Reformadoras de Pneus do Estado de São Paulo (Aresp).
A reforma de pneus é apontada pelo setor como uma das expressões mais consolidadas de economia circular no país, ao permitir múltiplos ciclos de uso da mesma carcaça, com impacto direto na redução de custos operacionais e ambientais.
Pressão sobre a indústria
Embora o setor mantenha relevância estrutural na economia e na logística brasileira, representantes da indústria afirmam que o ambiente competitivo vem sendo impactado por mudanças no comércio global, especialmente pela maior presença de produtos importados.
Nesse contexto, a expansão de fornecedores chineses no mercado de borracha e pneus tem adicionado pressão sobre preços e margens, sobretudo em segmentos mais sensíveis ao custo de aquisição. “O setor acompanha esse movimento com atenção e providência. A presença crescente de importados é parte da competição global e deve ser analisada menos pela origem e mais pelas condições em que essa concorrência ocorre”, afirma Renato Cordeiro, head de Portfólio de Eventos B2B da Francal.
Segundo ele, o ponto central do debate é a concorrência leal, com todos os agentes sujeitos às mesmas exigências técnicas, regulatórias, tributárias, ambientais e de segurança — incluindo normas do Inmetro, rastreabilidade e recolhimento de tributos.
“A competição é saudável quando ocorre em bases equilibradas, com fiscalização efetiva e regras claras para todos. Quando isso não acontece, o problema não é de competitividade, mas de política industrial”, diz. Cordeiro lembra ainda que a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 35,9% em 1985 para cerca de 13,7% atualmente, o que evidencia um processo de desindustrialização com impactos sobre emprego e renda.
“Cada real investido na manufatura gera R$ 2,69 na economia. Defender condições competitivas equilibradas não é protecionismo. É preservar um ativo estratégico do país”, afirma.
Vantagem em nichos industriais
A entrada de players estrangeiros mais competitivos em escala e preço pressiona margens, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao valor de aquisição. Ainda assim, a indústria brasileira preserva vantagens em nichos que exigem suporte técnico, customização e conhecimento das condições locais de operação.
Em setores como automotivo, mineração, infraestrutura, saúde e óleo e gás, o desempenho do produto é considerado mais relevante do que o preço inicial. “O produto de borracha não é item de custo — é componente de desempenho, segurança e confiabilidade”, afirma Cordeiro.
Ele ressalta, porém, que a competitividade da indústria nacional também depende de condições estruturais. Entre 2000 e 2024, a produtividade total dos fatores da indústria de transformação brasileira caiu 10,2%, enquanto países como Índia e México registraram ganhos.
“O Brasil convive com custos estruturais elevados. O caminho é combinar ganho de produtividade com especialização técnica”, diz.
Segundo ele, políticas como o programa Mover e a Nova Indústria Brasil estão na direção correta, mas precisam de continuidade, governança e horizonte de longo prazo. “A indústria não pede favor — pede previsibilidade. Política industrial séria tem horizonte de década, não de mandato”, afirma.
Reforma de pneus como ativo de competitividade
Nesse cenário, a reforma de pneus ganha protagonismo como uma das expressões mais consolidadas de economia circular no país. O modelo permite múltiplos ciclos de uso da mesma carcaça, reduzindo custos logísticos e impacto ambiental. “A reforma de pneus é um ativo estratégico ainda subutilizado na agenda de competitividade do país”, afirma Cordeiro.
O desempenho, no entanto, depende diretamente da qualidade do pneu novo. Carcaças inadequadas reduzem o potencial de reaproveitamento, encurtam o ciclo de vida e elevam custos para transportadores e para a cadeia produtiva. “O menor preço de aquisição raramente representa o menor custo por quilômetro rodado”, diz.
A indústria também aposta em tecnologia para enfrentar o aumento da concorrência global. Automação, inteligência artificial e rastreabilidade já fazem parte dos processos produtivos e de reforma.
As aplicações incluem sistemas de avaliação de carcaças, controle de vulcanização, monitoramento de desempenho de pneus e gestão de frotas, com impacto direto em eficiência e previsibilidade operacional. “A automação e a inteligência artificial já são realidade. Quem ainda trata isso como futuro está perdendo competitividade agora”, afirma Cordeiro.
Para ele, o desafio é transformar inovação em produtividade mensurável, o que depende de financiamento, qualificação técnica e estabilidade regulatória. Programas como Brasil Mais Produtivo, além de linhas do BNDES e da Finep, são apontados como instrumentos importantes, mas ainda insuficientes sem maior escala e desburocratização.
Fonte: Agência Transporte Moderno / Foto: Banco de imagens| Canva)




